O vôo de Nova Delhi para Leh sobrevoa os
Himalaias indianos e oferece-nos durante todo o tempo um panorama
espectacular de montanhas nevadas e de glaciares. Fiz a viagem
com a testa pressionada contra a vigia encantado com as paisagens.
O Ladakh está situado no planalto tibetano, no extremo
noroeste da India. É uma zona muito remota pois os acessos
através das altas montanhas são difíceis
e a estrada está interrompida pela neve durante pelo menos
seis meses no ano.
Leh, circundada por grandes montanhas, é a antiga capital
do reino do Ladakh, também conhecido por Pequeno Tibet.
A sua rua central é longa e muito cosmopolita, e o bazar
é um importante ponto de encontro e de troca de géneros.
Aí prolifera o pequeno comércio que me dá
a conhecer um pouco do estilo de vida dos ladakhis: o que comem
e vestem, as alfaias e utensílios que utilizam, as suas
produções artesanais e a sua arte.
Sendo um País budista, achei estranho que possua uma mesquita
e um bairro muçulmano no centro da cidade. Informam-me
que a presença da mesquita se deve ao casamento do rei
do Ladakh com uma princesa de Kashmir (muçulmana) no séc
XVII.
O palácio real, ainda propriedade dos monarcas, domina
a cidade do alto de uma colina. Acima dele situa-se o mosteiro
Tsemo (séc XV), engalanado com coloridas bandeiras de
oração.
Vale a pena a longa caminhada até aqui para se apreciar
o panorama da cidade rodeada de verdejantes campos agrícolas.
Leh situa-se no longo vale cavado pelo impetuoso rio Indo. As
aldeias da região contam poucas famílias pois a
terra cultivável é escassa, sendo a pastorícia
um meio de subsistência importante. Seguindo o modelo tibetano,
a actividade religiosa foi preponderante na vida deste povo e
aí encontramos inúmeros mosteiros, quase todos
em actividade. Viajar no Ladakh implica obrigatoriamente visitá-los
pois é neles que está depositada uma profunda cultura
ancestral.
Assisti ao festival anual do mosteiro de Stagna cujo propósito
era o de dar graças pelas colheitas. Quando, de manhã,
nos aproximávamos do mosteiro já se ouviam as enormes
trompas telescópicas que ressoavam grave e possantemente
pelas montanhas.
À semelhança das nossas procissões, esta
festa reúne todos os aldeões da área numa
ocasião em que podem participar na sua religião
e auferir mérito religioso. É também um
importante acontecimento social para o qual as pessoas vestem
as suas melhores roupas e onde convivem despreocupada e alegremente.
As cerimónias que mais agradam ao povo são as danças
com máscaras acompanhadas de música de instrumentos
de sopro e tambores. Em certas ocasiões, as pessoas também
participavam na dança e era notório que se divertiam
bastante.
Na planície sob o mosteiro, realizaram-se provas de tiro
com arco tradicional. A maioria dos desportistas não estavam
muito treinados, mas o que contava era o são convívio
e a boa disposição que reinava entre eles e a assistência.
Por ser uma manifestação genuína da tradição
deste povo, e não uma atracção turística,
considero que esta foi uma experiência de uma enorme riqueza
cultural.
Fiquei entusiasmado por o meu guia, Wangchuk, me ter informado
que iríamos a uma festa de aniversário de um parente,
nessa noite na sua aldeia a leste de Leh, a véspera de
iniciarmos o percurso pedestre pelas montanhas. No Ladakh os
aniversários festejam-se uma vez na vida de uma pessoa,
normalmente alguns meses após o nascimento.
Não podíamos comparecer sem levar as katas e fomos
ao bazar de Leh comprá-las. Manda a etiqueta nos países
de cultura tibetana que os visitantes apresentem katas aos seus
anfitriões. É um costume ancestral na região
e um sinal de cortesia e de profundo respeito. As katas oferecem-se
igualmente a quem parte por um período prolongado. Também
são oferecidas às estátuas das divindades
nos mosteiros ou são presas às rochas e a ramos
de arbustos em locais elevados nas montanhas. A kata tem as dimensões
de um cachecol e é de cor branca. Infelizmente já
é difícil encontrá-las em seda ou em linho
fino e tivemos de contentar-nos com as de poliester.
O povoado de Basgo situa-se num longo vale encravado entre montanhas
que a estrada atravessa numa das extremidades. O mosteiro, semi-arruinado
mas ainda activo, domina a região do alto de um elevado
promontório. Um pouco mais acima notam-se ainda algumas
muralhas da antiga fortaleza. As casas estão dispersas
pelos campos de cultivo que apresentam, nesta época, algumas
áreas cobertas de gelo compacto. As filas de choupos e
de salgueiros, uma visão típica destas altas paragens,
assinalam o curso de valas de irrigação.
Cruzámos dois homens que conduziam um enorme yak. Explicaram
que viajavam há cinco dias através das montanhas
e que tencionavam vender o animal numa destas aldeias. "Não
vão ter muita sorte", explicou-me o guia, "o
yak emagreceu com a viagem e os aldeãos sabem que ele
não sobrevive a esta altitude".
O Wangchuk apontou para a casa onde se realizava a festa, situada
em local preponderante numa encosta da montanha. Notava-se que
pertencia a gente abastada pois tinha uma grande dimensão
e três pisos. Enquanto caminhávamos ao longo do
ribeiro fomos observando os grupos de convivas, aperaltados para
a ocasião, que convergiam de vários carreiros,
alguns montados em cavalos adornados com arreios reluzentes.
As mulheres mais ricas usavam o toucado característico
do Ladakh, o perak, que desce pelas costas e é incrustado
com fiadas de turquesas. Consoante a posição da
sua detentora, ele pode ter três, cinco, sete ou nove fiadas,
estando estas últimas reservadas à alta nobreza
e à família real.
Como a maioria das casas no Ladakh, esta também tinha
os característicos amuletos com crâneos de cabra
pendurados nas paredes exteriores.
Senti que penetrava no íntimo de uma civilização
centenária, até culturalmente mais antiga do que
a nossa.
Após os cumprimentos aos senhores da casa fomos convidados
para uma sala onde seria servida uma refeição ligeira
aos recém-chegados. O mobiliário resumia-se a coloridos
tapetes no chão rodeando a divisão e a mesas baixas
e oblongas. Das paredes pendiam algumas fotografias de familiares,
algumas bastante antigas, de lamas venerados e de divindades
budistas. Mal nos sentámos, de pernas cruzadas sobre os
tapetes, servem-nos chá em taças de porcelana.
Nas regiões de cultura tibetana, o chá é
fervido longamente em água para obter-se um preparado
muito concentrado a que se dilui manteiga de yak e sal dentro
de uns cilindros de madeira próprios para o efeito. O
resultado, idêntico a um caldo, é bastante agradável.
Seguiu-se o chang, cerveja fermentada a partir de cevada, e arroz
com pedaços de cabrito servidos também em taças
com um suculento molho.
Depois conduziram-nos para o recinto da festa ao ar livre sob
grandes toldos. Após saudações, sentámo-nos
de pernas cruzadas no solo coberto de tapetes tibetanos, detrás
de mesas baixas. Os homens e as mulheres sentavam-se em mesas
separadas.
Os criados serviram-nos sutcha (chá salgado com manteiga
de yak) e chang (cerveja caseira de cevada), seguindo-se chapatti,
carne com batatas, depois dhal-bat (puré de lentilhas
com arroz). Senti-me um pouco embaraçado quando constatei
que não era capaz de comer o arroz com a mão, e
tive de pedir uma colher.
A banda de músicos tocava incessantemente e, mais tarde,
os convivas iniciaram a dança. Homens e mulheres em conjunto
faziam uma fila por entre as mesas e avançavam com passos
lentos e curtos ao ritmo do tambor. Exibiam uma expressão
de distante e, de kata (écharpe cerimonial) nas mãos,
produziam movimentos suaves e elegantes de acordo com o compasso
da música.
À uma hora da manhã o frio já era intenso
e passou-se ao salão onde a ceia nos foi servida. A música
e a dança não esmoreciam, o chang continuava a
correr com abundância e as crianças dormiam no colo
das mães.
O anfitrião, dos poucos que falava algum inglês,
contou-me que tinha terras e que era lavrador. O seu pai tinha
sido um grande mercador e lembrava-se de como ele partia com
a sua caravana de yaks e de cavalos para o Changtang.
Nessa época os chineses ainda não ocupavam o Tibet
e o comércio era livre. O pai ia sempre armado e combinava
viajar com outros mercadores para fazerem frente aos salteadores
que na época infestavam os caminhos.
A festa durou toda a noite. De manhã, todos nos dirigimos
para a casa de uns familiares, do outro lado do vale, para tomarmos
o pequeno almoço. Serviram-nos kolak (tsampa misturada
com sutcha), chá e mais chang. No final, insistiram comigo
e com o Wangchuk para que os seguíssemos para a casa de
outro aldeão pois... a festa prosseguia !
Declinámos com cortesia pois a nossa caminhada através
das montanhas tinha mesmo de começar.
Mais tarde, deixaria este País com a memória empolgada
de vivências únicas e com a nostalgia de não
poder prolongar a minha estadia entre este povo que vive com
alegria enfrentando as mais rudes intempéries. Despedi-me
do Wangchuk no aeroporto. Pouco antes de partir envolvi-lhe o
pescoço com uma kata e ele manifestou uma enorme surpresa
que se traduziu em vergonha por não ter sido ele a lembrar-se.
Gonçalo Velez
Dez 1996