Experiência de Viagem: De Macchu Pichu ao Lago Titicaca, Peru

Fui sempre surpreendido pela meticulosidade desta singular arte da maçonaria. As paredes dos edifícios nobres e das fortalezas são compostas de pedras, muitas pesando toneladas, que foram meticulosamente talhadas para assentarem ao milímetro sobre as demais. As fortalezas de Sacsayhuaman e de Pisac são disso exemplos notáveis.
Mas ainda o que achei mais inédito, é a transformação de rochedos maciços em peças de arte religiosa.
Os pedreiros incas abriam galerias, talhavam escadarias, nichos e altares, e esculpiam inúmeras formas com as mais diversas funções.
O exemplo mais conhecido é o Intihuatana, o mostrador solar, que era o objecto central de todos os complexos religiosos incas.
Qenco, perto de Cuzco, é um bom exemplo deste tipo de trabalho realizado numa vasta massa rochosa. Além das galerias mortuárias apresenta curiosas esculturas em forma de condor, lama, puma e, o mais conhecido, o zig zag que serviria para escoar chicha (cerveja inca) ou o sangue dos sacrifícios.
orados, sobretudo o sol e a lua, e a eles eram dedicados templos. Os templos do sol ocupam sempre um lugar preponderante e as suas paredes têm uma forma elipsoidal.O expoente máximo desta viagem é sem dúvida o caminho inca para Macchu Pichu.
É neste percurso que vamos encontrando aldeamentos, postos de controlo, observatórios astronómicos e centros religiosos muito bem preservados no tempo. Não só por que o único acesso é pedestre, mas também por que uma boa porção deste caminho esteve submerso na floresta até há pouco tempo.
A última calçada desta via foi descoberta há oito anos !
A paisagem é curiosa. Caminhamos entre os 3000m e os 4000m e a vegetação é tropical. As vertentes abruptas das montanhas estão envolvidas de denso arvoredo do qual pendem lianas, e o musgo cobre os rochedos.
À medida que avançamos apercebemo-nos de que os monumentos assumem cada vez maior importância. O número de recintos de banhos litúrgicos aumenta, bem como a qualidade da arquitectura. Pressente-se que aproximamos um importante centro religioso.
Chegamos finalmente a Intipunku, o
Portão do Sol, e veremos abaixo de nós a célebre cidade perdida de Macchu Pichu.
A sua enorme importância deve-se ao facto de ela ter sido abandonada e esquecida pelos nativos antes da chegada dos espanhóis. Por isso, temos hoje o privilégio de visitar uma cidade inca praticamente intacta.
Calculo que muitas ruínas ainda faltam descobrir pois a floresta tem oferecido, ano após ano, novas ruínas e calçadas. Reparei, por exemplo, em Sayacmarca numa escadaria que está barrada pela vegetação. E o templo da Lua, em Macchu Pichu, foi descoberto muito recentemente.
Embarquei em Puno com destino à ilha de Taquile. O lago é imenso e muito tranquilo.
Passamos por alguns pescadores de Uros nas suas canoas de juncos e fazemos escala numa das ilhas flutuantes. O solo é esponjoso pois as várias camadas de totora (juncos) assentam em baixios. As suas cabanas também são construídas deste material.
Taquile é uma ilha inteiramente agrícola com cerca de 7 km de comprimento. As suas vertentes estão
cobertas de socalcos do tempo dos incas cultivados de milho, cevada e vinha. Devido ao relêvo não é possível utilizar veículos, nem mesmo bicicletas.
É por isso interessante percorrer a pé os carreiros que ligam os povoados e descobrir algumas ruínas incas no cimo das colinas. De caminho observam-se os aldeãos a trabalhar nos campos, lavrando com arados de madeira puxados por bois e transportando a produção para as suas quintas.
Se você participar nesta viagem, não pode perder o sublime pôr do sol sobre o lago e sobre a Cordilheira Real boliviana.
Gonçalo Velez
PS: Realizei esta viagem em Novembro 96 a fim de reconhecer o itinerário que os grupos das Rotas do Vento fariam a partir de 97.